Médico e motorista de aplicativo? O risco real da precarização da medicina no Brasil
A medicina no Brasil está entrando em um processo silencioso de precarização. O crescimento acelerado do número de médicos, a queda da renda média e a expansão descontrolada de cursos de Medicina acendem um alerta já vivido pela advocacia. Neste artigo, analisamos dados do CFM, USP e AMB, explicamos como a lei da oferta e da demanda afeta a profissão médica e mostramos por que diploma, sozinho, não protege contra saturação — além de apontar caminhos estratégicos para médicos que querem se diferenciar e construir uma carreira sustentável.
Felipe Vasconcelos | Gerente de Marketing
2/8/20265 min ler
A medicina é, sem dúvida, uma das profissões mais admiradas e simbólicas da sociedade. Trata-se de uma carreira que exige não apenas altíssimo nível de preparação intelectual, mas também disciplina incomum, resistência emocional e anos de dedicação integral. No Brasil e no mundo, o ingresso no curso de Medicina é marcado por concorrência extrema e por uma longa jornada formativa que poucos conseguem concluir.
Para se ter uma dimensão desse desafio, no vestibular de 2023 da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no campus de Curitiba, a concorrência para o curso de Medicina chegou a 68,16 candidatos por vaga. Além disso, a formação médica no Brasil exige seis anos de graduação em período integral, com atividades teóricas e práticas que totalizam, no mínimo, 7.200 horas, o equivalente a cerca de 300 dias inteiros de dedicação exclusiva — sem contar residência e especializações posteriores.
Diante desse cenário, seria natural imaginar que a medicina estaria blindada contra crises de mercado. No entanto, a realidade começa a indicar o contrário.
O crescimento acelerado da medicina no Brasil
Segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), em 2024 o Brasil contava com aproximadamente 575.930 médicos em atividade. Esse número é expressivo não apenas em termos absolutos, mas também proporcionais: o país apresenta uma razão superior à de nações como Japão, Estados Unidos e até mesmo China.
Esse crescimento não foi gradual. Entre 1990 e 2024, o número de médicos saltou de 131.278 para 575.930 profissionais, um aumento de cerca de 339% em pouco mais de três décadas. De acordo com o próprio conselho de classe, a tendência é de continuidade desse crescimento, impulsionada principalmente pela abertura acelerada e pouco criteriosa de cursos de Medicina em todo o país.
Embora a medicina ainda desfrute de forte demanda estrutural, os impactos desse aumento já começam a aparecer de forma concreta na remuneração da categoria.
Queda de renda e sinais de alerta
Uma reportagem publicada pelo jornal UOL em 8 de fevereiro de 2023 revelou que, entre 2012 e 2020, houve uma queda de 12% na renda média dos médicos brasileiros. O dado é resultado de pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Associação Médica do Brasil (AMB).
Segundo o estudo, essa redução está diretamente ligada à entrada massiva de novos profissionais no mercado, combinada com a expansão descontrolada das escolas médicas. Trata-se de um fenômeno já observado em outras profissões que, historicamente, gozavam de alto prestígio e estabilidade — como a advocacia.
A advocacia como espelho do futuro
O que hoje começa a surgir na medicina já se consolidou há anos na advocacia. O Brasil possui uma das maiores proporções de advogados do mundo, com cerca de 1,3 milhão de profissionais em atividade, o que resulta, aproximadamente, em um advogado para cada 164 brasileiros.
De acordo com pesquisa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), intitulada Perfil do Advogado, cerca de 45% dos advogados brasileiros ganham até sete salários mínimos, enquanto apenas 9% recebem 20 salários mínimos ou mais. Esses dados evidenciam uma forte concentração de renda no topo e uma ampla base de profissionais com remuneração baixa.
Essa realidade pode ser explicada de maneira simples pela lei da oferta e da demanda. Quando há excesso de profissionais oferecendo o mesmo serviço, o preço médio tende a cair. Foi exatamente isso que ocorreu com a advocacia: a saturação do mercado levou à precarização da remuneração e à competição baseada quase exclusivamente em preço.
Não é raro encontrar advogados formados, inscritos na OAB, exercendo outras atividades para complementar renda — inclusive como motoristas de aplicativo. Já presenciei essa situação pessoalmente. O trabalho é honesto, sem dúvida, mas o cenário revela uma dura realidade: formação e diploma não garantem inserção no mercado quando há excesso de oferta.
O cenário atual da medicina: repetindo o mesmo roteiro
Na medicina, observa-se um movimento semelhante. O crescimento acelerado do número de profissionais já pressiona a remuneração média, especialmente em grandes centros urbanos. Consultas mal remuneradas, jornadas extensas e vínculos precários tornam-se cada vez mais comuns.
Diante disso, surge a proposta de criação de um Exame Nacional de Proficiência Médica como requisito para o registro profissional. Embora o discurso oficial aponte para a melhoria da qualidade da formação, é possível sustentar que o exame funciona, na prática, muito mais como um filtro de entrada no mercado do que como uma solução estrutural.
A experiência da advocacia ilustra bem esse ponto. O Exame da Ordem não impediu a saturação do mercado, tampouco eliminou profissionais mal preparados. Na realidade, tornou-se mais um obstáculo burocrático, especialmente para indivíduos de contextos socioeconômicos mais vulneráveis, sem resolver o problema central: o excesso de oferta.
Diferenças importantes — mas não definitivas
É inegável que existem diferenças estruturais relevantes entre médicos e advogados:
Essencialidade: todo ser humano, em algum momento da vida, precisará de um médico; nem todos precisarão de um advogado;
Demanda estrutural elevada: há mais possibilidades de alocação para médicos — hospitais, clínicas, unidades básicas de saúde, atendimento domiciliar e casas de repouso;
Demanda por excelência: sempre haverá pacientes dispostos a pagar mais por médicos altamente especializados, bem posicionados e reconhecidos.
Esses fatores retardam os efeitos da saturação, mas não os eliminam. A proliferação de clínicas populares, por exemplo, amplia o acesso à saúde, mas também pressiona a remuneração, exigindo jornadas cada vez mais extensas para que o médico mantenha um padrão de renda aceitável.
Onde médicos e advogados erram do mesmo modo
Tanto médicos quanto advogados cometem um erro estratégico recorrente: acreditar que competência técnica, por si só, garante demanda. Não garante.
O comportamento do consumidor mudou. Pacientes e clientes pesquisam reputação, autoridade, posicionamento e confiabilidade antes de tomar decisões — e essa análise ocorre quase sempre na internet. Não basta ser bom; é preciso ser percebido como bom.
Hoje, estar ausente do ambiente digital ou comunicar-se de forma inadequada é abrir mão de espaço em um mercado cada vez mais competitivo e orientado por informação.
Conclusão
A crise da advocacia demonstra, de forma objetiva, que nenhuma profissão está imune às leis do mercado. O crescimento desordenado de profissionais, aliado à falsa sensação de segurança histórica, resultou em perda de valor médio, precarização da remuneração e concorrência predatória.
A medicina ainda goza de prestígio e demanda estrutural, mas os sinais são claros: se a trajetória atual continuar, a profissão seguirá o mesmo caminho. O principal ensinamento que a advocacia oferece aos médicos é simples, porém desconfortável: diploma não protege contra saturação.
O futuro da medicina tende a recompensar menos o título e mais a especialização real, a diferenciação, a reputação e o posicionamento estratégico. Quem entender isso cedo terá espaço. Quem ignorar, corre o risco de repetir exatamente o que já aconteceu com a advocacia: muito trabalho, muita concorrência e retorno financeiro cada vez menor.
