O que a situação atual dos advogados brasileiros ensina para os médicos
Análise crítica sobre a crise da advocacia no Brasil e as lições que esse cenário oferece à medicina. Entenda como a saturação do mercado, a lei da oferta e da demanda e o excesso de profissionais impactam a remuneração e o futuro de médicos e advogados.
Felipe Vasconcelos | Gerente de Marketing
2/4/20264 min ler
CENÁRIO ATUAL DA ADVOCACIA
De acordo com pesquisa realizada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), intitulada Perfil do Advogado, cerca de 45% dos advogados brasileiros ganham até sete salários mínimos, o que corresponde a aproximadamente R$ 11.347,00 em 2026. Paralelamente, o país conta hoje com aproximadamente 1,3 milhão de advogados em atividade.
Em sentido oposto, apenas 9% dos profissionais da advocacia recebem 20 salários mínimos ou mais, o que evidencia uma forte concentração de renda e uma ampla base de profissionais com baixa remuneração.
Essa realidade está diretamente relacionada à excessiva quantidade de advogados em atividade, o que resulta, proporcionalmente, em um advogado para cada 164 brasileiros. Trata-se de um índice extremamente elevado quando analisado sob a ótica do mercado.
Do ponto de vista econômico, essa situação pode ser explicada pela clássica lei da oferta e da demanda, segundo a qual o preço de um bem ou serviço é inversamente proporcional à sua disponibilidade. Em outras palavras, quanto maior a oferta, menor tende a ser o preço; quanto mais escasso, maior o seu valor. Quando um mercado se torna saturado, a remuneração média inevitavelmente sofre pressão para baixo — exatamente o que ocorreu com a advocacia.
CENÁRIO ATUAL DA MEDICINA
Segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), publicados em 2024, o Brasil possui cerca de 575.930 médicos em atividade, o que equivale, proporcionalmente, a 2,81 médicos para cada mil habitantes — número superior ao de países como Estados Unidos, Japão e até mesmo China.
Entre 1990 e 2024, a população médica saltou de 131.278 para 575.930 profissionais, representando um crescimento de aproximadamente 339%. E, de acordo com o próprio conselho de classe, a expectativa é que esse número continue aumentando nos próximos anos, impulsionado principalmente pela abertura desenfreada de cursos de Medicina.
Nesse contexto, surge a proposta de instituição de um Exame Nacional de Proficiência Médica como requisito para obtenção do registro profissional. Embora o discurso oficial aponte uma preocupação com a qualidade da formação, é possível sustentar que o exame funciona, na prática, como um filtro de entrada no mercado, muito mais do que um verdadeiro instrumento de garantia de excelência.
Isso porque já existe um filtro naturalmente mais eficiente do que qualquer prova: o próprio mercado. Profissionais mal preparados, em tese, não se sustentam a médio e longo prazo. A experiência da advocacia demonstra isso de forma clara: o Exame da Ordem não eliminou os advogados incompetentes, tampouco impediu a saturação do mercado, funcionando apenas como mais um obstáculo burocrático, especialmente para quem vem de contextos socioeconômicos mais frágeis.
Diante do crescimento contínuo do número de médicos, é razoável concluir que, assim como ocorreu na advocacia, a remuneração média da categoria tende a cair, pressionada pela mesma lei da oferta e da demanda.
DIFERENÇAS ENTRE MÉDICOS E ADVOGADOS
Embora o cenário da advocacia sirva como alerta para a medicina, é inegável que existem diferenças estruturais relevantes entre as duas profissões:
Essencialidade: em algum momento da vida, praticamente todo ser humano precisará de um médico, mas não necessariamente de um advogado.
Alta demanda estrutural: há significativamente mais possibilidades de alocação de médicos — unidades básicas de saúde, clínicas, hospitais, casas de repouso, atendimento domiciliar — do que de advogados, cujo mercado é mais concentrado.
Expansão de clínicas populares: nos grandes centros urbanos, clínicas de baixo custo se multiplicam, o que amplia o acesso, mas também pressiona a remuneração, exigindo do médico jornadas extensas para obter rendimentos razoáveis.
Demanda permanente por profissionais de excelência: sempre haverá pacientes dispostos a pagar mais por médicos altamente qualificados, especializados e bem posicionados no mercado.
Esses fatores retardam, mas não eliminam, os efeitos da saturação.
ONDE MÉDICOS E ADVOGADOS FALHAM
Tanto médicos quanto advogados costumam cometer o mesmo erro estratégico: acreditar que competência técnica, por si só, garante demanda. Não garante.
De nada adianta ser um excelente profissional se as pessoas não sabem que você existe. O comportamento do consumidor mudou. Hoje, pacientes e clientes pesquisam reputação, autoridade e confiabilidade, e essa pesquisa ocorre, quase sempre, na internet.
Atualmente, não basta estar presente no ambiente digital; é fundamental ser encontrado pelo público certo, comunicar valor, construir autoridade e diferenciação. Ignorar isso é abrir mão de espaço em um mercado cada vez mais competitivo.
CONCLUSÃO
A crise da advocacia mostra, de forma clara e concreta, que nenhuma profissão está imune à lógica do mercado. O aumento descontrolado de profissionais, aliado à falsa sensação de estabilidade histórica, levou à perda de valor médio da advocacia, à precarização da remuneração e à competição baseada apenas em preço.
A medicina, embora ainda desfrute de maior prestígio e demanda estrutural, caminha na mesma direção se não houver uma mudança de mentalidade. O principal ensinamento que a advocacia oferece aos médicos é simples e duro: título não protege contra saturação.
O futuro da medicina tende a premiar menos o diploma e mais a especialização, a diferenciação, a reputação e o posicionamento estratégico. Quem entender isso cedo terá espaço. Quem ignorar, corre o risco de repetir exatamente o que já aconteceu com a advocacia: muito trabalho, muita concorrência e cada vez menos retorno financeiro.
