Por que os médicos ganham relativamente bem e por que o salário desses profissionais tende a ser cada vez mais reduzido?
Uma das carreiras mais visadas em grande parte dos países é a Medicina. Muitas pessoas buscam essa profissão não apenas pelo status associado a ela, mas, principalmente, pela elevada remuneração que os médicos costumam receber. Afinal, por que esses profissionais, em regra, recebem salários tão altos? Ao contrário do que se poderia imaginar, isso não ocorre simplesmente em razão da importância da profissão, mas, sobretudo, por um fator que está cada vez mais em extinção: a escassez de médicos no mercado.
Felipe Vasconcelos | Gerente de Marketing
8/23/20264 min ler
Uma das profissões mais bonitas é a medicina, não apenas por envolver diretamente o cuidado com o ser humano, mas também pelo fato de ser extremamente difícil ingressar e permanecer no curso de Medicina. Além da relevância e da beleza da profissão, existe outro fator que estimula muitas pessoas a ingressarem nessa área: a possibilidade de obter uma remuneração elevada. Entretanto, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os altos salários dos médicos não são determinados simplesmente pela importância da profissão, mas, principalmente, pela escassez desses profissionais em relação à demanda existente.
No que diz respeito à remuneração dos profissionais da área da saúde, os médicos, em geral, apresentam salários superiores aos dos demais profissionais. Um exemplo dessa diferença pode ser observado na comparação com a enfermagem. Embora a Lei nº 14.434/2022 tenha estabelecido o piso salarial nacional de R$ 4.750,00 para enfermeiros, a realidade do mercado, especialmente no setor privado, nem sempre corresponde ao valor definido pela legislação.
É importante destacar que enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem são profissionais essenciais para o funcionamento do sistema de saúde. Mas, se todos esses profissionais são indispensáveis, por que existe uma diferença tão significativa entre suas remunerações e as dos médicos? Uma das principais explicações está justamente na escassez relativa desses profissionais. Há muito mais enfermeiros e técnicos de enfermagem disponíveis no mercado do que médicos, e os salários também representam um custo para os empregadores. Dessa forma, eles estão sujeitos, entre outros fatores, à lógica econômica da oferta e da demanda: quando a oferta de determinado bem ou serviço aumenta, mantendo-se a demanda constante, tende a haver pressão para a redução de seu preço; quando a oferta é limitada diante da demanda, tende a ocorrer o movimento contrário.
A lógica pode ser compreendida por meio de exemplos simples. Se determinado produto é abundante e facilmente encontrado, o consumidor possui mais alternativas e o vendedor tende a ter menor poder para cobrar preços elevados. Por outro lado, quando um produto é raro e existe demanda por ele, seu preço tende a ser maior. Esse princípio pode ser aplicado não apenas a bens materiais, como uma garrafa de água ou uma pedra de diamante, mas também ao mercado de trabalho e à remuneração dos profissionais.
Nesse sentido, os números ajudam a compreender melhor essa diferença. De acordo com dados da Associação Médica Brasileira (AMB), em 2024, o Brasil contava com aproximadamente 597 mil médicos. Em contrapartida, o país possuía mais de 3 milhões de profissionais de enfermagem, entre enfermeiros, técnicos e auxiliares. Isso significa que o contingente de profissionais da enfermagem era várias vezes superior ao de médicos, evidenciando uma oferta muito maior de mão de obra nessa área.
Essa diferença na quantidade de profissionais não acontece por acaso. A formação médica apresenta barreiras de entrada consideravelmente maiores quando comparada à formação em enfermagem. O curso de Medicina possui mensalidades muito elevadas nas instituições privadas, longa duração, carga horária extensa e um número historicamente mais limitado de vagas em comparação com outros cursos da área da saúde. Além disso, o ingresso nas universidades públicas é altamente concorrido. Consequentemente, todos esses fatores funcionam como filtros que limitam a quantidade de novos profissionais que conseguem entrar no mercado médico a cada ano.
Entretanto, essa realidade vem mudando. A escassez relativa de médicos no Brasil tende a diminuir à medida que aumenta o número de profissionais disponíveis no mercado. Entre os fatores que contribuem para isso estão a abertura de novos cursos de Medicina, a expansão de vagas e políticas de financiamento e acesso ao ensino superior. Com mais profissionais entrando no mercado, a oferta de mão de obra aumenta e, mantida a demanda em níveis semelhantes, pode haver uma pressão sobre a remuneração, especialmente em áreas e localidades nas quais a oferta de médicos já é elevada.
Isso não significa, porém, que todos os médicos passarão a ganhar pouco. A redução da escassez média da profissão não elimina a possibilidade de determinados profissionais continuarem sendo altamente valorizados. Pelo contrário, à medida que um mercado se torna mais competitivo, especialização, experiência, reputação e diferenciação tendem a adquirir ainda mais importância.
Diante disso, surge uma questão importante: o que um profissional pode fazer para se tornar escasso e, consequentemente, aumentar seu poder de negociação e sua possibilidade de obter uma remuneração maior?
Uma das maneiras de alcançar esse objetivo, mesmo em um mercado mais competitivo, é investir em especialização e diferenciação. Por mais que determinada profissão possua muitos profissionais, ainda pode existir escassez de pessoas altamente qualificadas em determinadas áreas, capazes de oferecer um serviço diferenciado ou de atender a demandas específicas do mercado. Nesse cenário, não basta ser um excelente profissional tecnicamente; é necessário também fazer com que o mercado reconheça essa competência.
É justamente nesse ponto que o marketing pode desempenhar um papel importante. Um profissional pode possuir excelente formação, experiência e capacidade técnica, mas essas características têm pouco impacto comercial se potenciais clientes ou pacientes sequer sabem que ele existe. Ter uma presença digital profissional, um website bem estruturado e um Perfil da Empresa no Google atualizado pode contribuir para aumentar sua visibilidade e facilitar que pessoas interessadas encontrem seus serviços.
Portanto, o futuro da remuneração médica não depende apenas da importância social da profissão. A medicina continuará sendo essencial, mas a remuneração também será influenciada pela relação entre oferta e demanda, pela especialização e pela capacidade de cada profissional se diferenciar em um mercado progressivamente mais competitivo. Em outras palavras, à medida que ser médico deixa de ser, por si só, um fator suficiente para garantir escassez, a capacidade de construir autoridade, especialização e diferenciação tende a se tornar cada vez mais relevante.
