Por que a advocacia está se tornando uma profissão cada vez mais precarizada
A advocacia vive um processo silencioso de precarização. Dados recentes da OAB revelam excesso de profissionais, queda de honorários e uma concorrência cada vez mais predatória. Neste artigo, analisamos as causas reais desse cenário — da lei da oferta e demanda à ineficácia da tabela de honorários — e mostramos como advogados podem se posicionar estrategicamente para não cair na vala comum do mercado jurídico.
Felipe Vasconcelos | Gerente de Marketing
2/8/20264 min ler
De acordo com um estudo publicado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 2024, o número de advogados em atuação no Brasil chegou a 1.370.476 profissionais. Trata-se de um contingente extremamente elevado para um país com as características econômicas e sociais do Brasil. O mesmo levantamento aponta que a maioria dos advogados ganha até 10 salários mínimos, enquanto apenas cerca de 2% conseguem rendimentos iguais ou superiores a 20 salários mínimos — realidade já analisada no artigo O que a situação atual dos advogados brasileiros ensina para os médicos.
Esses dados ajudam a compreender por que a advocacia enfrenta um processo claro de precarização. Neste artigo, explico as causas centrais desse fenômeno e, mais importante, como evitar cair na vala comum em que muitos profissionais acabam se encontrando.
A lei da oferta e da demanda aplicada à advocacia
O próprio estudo da OAB responde, de forma objetiva, uma das principais questões: há excesso de oferta de advogados em um mercado que não comporta essa quantidade de profissionais. Sob a ótica da lei da oferta e da demanda, quando a oferta de um serviço cresce muito mais rápido do que a demanda, o valor desse serviço tende a cair.
Na prática, é exatamente isso que acontece hoje. Em um cenário no qual existe, aproximadamente, um advogado para cada 164 brasileiros, o cliente possui inúmeras opções e, inevitavelmente, passa a decidir com base no preço, não no valor. O resultado é uma concorrência predatória, na qual os profissionais disputam clientes reduzindo honorários, muitas vezes até níveis incompatíveis com a dignidade da profissão.
A tabela de honorários da OAB: entre a teoria e a realidade
Poucas pessoas fora do meio jurídico sabem, mas a OAB possui uma tabela de honorários que deveria servir como parâmetro nacional para a cobrança dos serviços advocatícios. Na prática, porém, para a maioria dos advogados, essa tabela é inexequível.
O principal problema é que uma tabela nacional ignora as diferenças regionais do país: custo de vida, poder aquisitivo da população e dinâmica econômica local variam enormemente. Além disso, grande parte dos brasileiros simplesmente não tem condições de pagar os valores sugeridos.
O ponto mais contraditório é que, ao menos em teoria, o advogado que cobra abaixo da tabela pode cometer infração disciplinar por aviltamento de honorários. O que parece não ser levado em conta é um princípio básico de economia: o preço de um serviço é determinado pelo mercado, não por uma tabela. Em um cenário de excesso de oferta, nenhuma norma formal é suficiente para sustentar preços artificialmente elevados.
“Indispensável à administração da justiça”?
A afirmação de que a advocacia é “indispensável à administração da justiça” é frequentemente repetida — e, do ponto de vista institucional, faz sentido. No entanto, a realidade do mercado expõe uma contradição incômoda.
Se a profissão fosse, de fato, valorizada como esse discurso sugere, não veríamos advogados formados, com carteira da OAB, trabalhando como motoristas de aplicativo ou exercendo atividades completamente alheias à área jurídica. Já presenciei essa situação pessoalmente. Trata-se de trabalho honesto, sem dúvida, mas que revela uma realidade dura: muitos profissionais simplesmente não conseguem se inserir no mercado jurídico, devido à concorrência extrema.
Esse cenário tende a se agravar, uma vez que novos advogados continuam se formando em massa todos os anos, sem que o mercado cresça na mesma proporção.
É impossível ignorar que existem responsáveis por essa situação. Um deles é a própria OAB, que insiste em soluções pouco eficazes — como o tabelamento de preços — ao invés de defender medidas que estimulem concorrência saudável, valorizem competência e permitam que os melhores profissionais se destaquem, sem mais burocracia ou soluções desconectadas da realidade.
Como não cair na vala comum da advocacia
Apesar do cenário adverso, nem tudo está perdido. Ainda há espaço — e demanda — para advogados bem posicionados. Para isso, é fundamental desenvolver alguns pilares básicos:
Qualificação técnica: o advogado precisa dominar profundamente sua área de atuação e ter conhecimento das áreas correlatas. É inadmissível — e francamente vergonhoso — ver profissionais do Direito cometendo erros gramaticais graves ou se comunicando de forma confusa. Técnica e comunicação caminham juntas.
Capacidade de impor limites: advogados, por natureza, precisam ser combativos — não no sentido de buscar conflito, mas de saber se posicionar, argumentar e estabelecer limites claros. Um profissional que não transmite segurança, autoridade e confiança dificilmente se sustenta em um mercado tão competitivo.
Marketing jurídico profissional: não basta ser bom: é preciso ser percebido como bom. Muitos advogados acreditam que conseguem cuidar do próprio marketing e, em geral, o resultado é desastroso. A linguagem não conversa com o público, os conteúdos são enfadonhos e não geram autoridade. Marketing exige técnica, estratégia e leitura de dados. Sem isso, o profissional permanece invisível — e quem não é visto, não é contratado.
Conclusão: precarização não é destino, é consequência
A precarização da advocacia não é fruto do acaso, nem de incompetência generalizada. Ela é consequência de excesso de oferta, desalinhamento institucional, falhas de posicionamento e da dificuldade de muitos profissionais em se adaptar à lógica real do mercado.
Ainda assim, quem investe em qualificação, postura profissional e marketing estratégico consegue sair da média e construir uma carreira sólida — mesmo em um cenário hostil.
